Contos sobrenaturais de Anthony Olliver


22/07/2012


Pacto de sangue (O contato)

 

3. Século XXI

 

   E agora aqui estou. Pleno século XXI. Tanta coisa moderna, que se eu tivesse deveras morrido, não conseguiria nem em sonho imaginar tanta façanha que a tecnologia nos proporciona hoje.

   Sei que o leitor está curioso a respeito deste período em que passei, desde a minha morte até hoje, afinal de contas em 73 anos se passam muitas coisas. É praticamente a média de vida de um mortal aqui no Brasil.

   Neste grande período, conheci pessoas que nasceram e que já partiram, alguns ainda novos e outros já fartos da vida. Dos meus amigos que tive em vida, já não resta mais nenhum.

   Regis teve uma morte triste e traumática, não só para mim, mas todos os seus outros amigos. Eu não sei como ele conseguiu cair justamente com a cabeça sobre o meio fio, se existia tantos outros lugares para ele bater com a cabeça. Porém acredito-me, que se ele tivesse batido com a cabeça em qualquer outro lugar, também não escaparia, pois a moto pilotada por ele vinha em altíssima velocidade e ele ainda vinha imprudentemente sem o capacete.

   Se o leitor me permite não gostaria de prosseguir com esta dura história, pois Regis era um dos meus melhores amigos e senti muito com a sua perda. Até cheguei a desejar a mesma sorte que tive a ele, mas logo vi que esta não era uma boa ideia. Só eu sei a tamanha angustia que sinto todos os dias por esta vida que é bem pior que a morte.

   Tenho que confessar que quando vi o corpo de Regis estendido ali no asfalto, sem vida o invejei bastante. Eu queria está ali, no lugar dele e ter dado um adeus para este mundo cruel para sempre.

   Eu não sei se devo contar-lhes a vida, ou melhor, a morte de João Marcos. Esta era uma das coisas que mais desejava a ele enquanto vivo, mas agora eu não poderia desejar algo, que para mim era o maior premio que alguém poderia alcançar, ao meu maior inimigo.

   Eu odiava João Marcos com todas as minhas forças e não entendia o porquê de tanto ódio. Antes eu o odiava por ser a pessoa que me impedia de ser o único dono daquela grande empresa deixada por meu pai. Agora o odiava por ter tirado a minha vida, mas eu não o poderia odiar tanto, pois eu ainda estava vivo, mesmo tendo morrido.

   João Marcos – este nome me dar certo nojo, estou repetindo tantas vezes para que o leitor sinta o mesmo que eu – fora encontrado morto, junto com sua amante em um quarto de sua mansão. Morrera de causas naturais, velhice (se é que se morre de velhice) ou por uso exagerado de certo comprimido que faz com que os velhos se rejuvenesçam.

   Não foi uma morte inolvidável como a de Regis. Todos da cidade de São Luís comentaram a respeito, mas logo esqueceram a morte daquele influente empresário.

   Bem, estamos no século XXI. Pleno verão do ano 2012. Estou sentado em uma poltrona muito confortável, em frente a minha televisão de led de 50 polegadas, assistindo um filme em 3D. As imagens são impressionantes. São idênticas à realidade. Sei que até um jovem ou adolescente de hoje, encanta-se vendo as maravilhas deste nosso maravilhoso mundo novo, quanto mais um velho imortal petrificado em eternos 25 anos de idades, provindo do século passado.

 

 

 

Escrito por o Contador de historias às 11h37
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