Contos sobrenaturais de Anthony Olliver


10/07/2012


Pacto de sangue (O contrato)

 

2. Surpresas

 

   No dia em que morri se não me engano era um dia de sábado do ano 1939. O mundo estava em inicio de guerra, mas o Brasil pouco se envolvia e o povo do nosso país ia vivendo e morrendo como se nada estivesse acontecendo na Europa. 

   Eu ainda estava na flor da idade, com apenas 25 anos de idade e era um elegantíssimo rapaz. Minha voz rouca e meiga ajudava-me a conquistar quase todas as moças que desejava. Eu era um tremendo galinha. Meus amigos invejavam-me muito por eu ser tão pegador e as mulheres que eu conquistava iam se decepcionando, algumas comigo, outras com todos os homens e outras com a vida; algumas chegavam a se deprimir e houve o caso de uma ficante minha que por eu a conquistar e ela apaixonar-se por mim e eu não mais querê-la, suicidou-se com um tiro na cabeça, mas eu ia vivendo e sendo sempre querido.

   Mas minha vida não era só de garotas. Havia também jogatinas, bebedices e tudo que o dinheiro nos proporciona, pois afinal isto eu tinha muito. Meu pai deixara-me uma grande empresa na capital maranhense que só pertencia a mim e ao Sr. João Marcos.

   João marcos era cunhado do meu pai, casado com a única irmã que meu pai tinha, tornaram-se muito amigos, mas eu sempre odiei aquele sujeito. Ele além de arrogante era muito soberbo, se bem que eu também era arrogante e soberbo, talvez até mais que ele.

   Com a morte de meu pai, a empresa agora estava em minhas mãos e nas do meu odiado sócio. Eu teria que achar uma solução para me apossar daquela empresa, ou de maneira licita ou ilícita, mas o meu sócio encontrou esta maneira mais cedo que eu, mandando Regis vir tirar-me a vida, uma vida tão preciosa que eu possuía.

   Regis não devia ter feito isso comigo. Ele era um grande amigo, talvez um dos melhores amigos que eu tinha. É claro que eu tinha roubado duas das namoradas dele, sendo que uma já estava noiva dele e ele guardava mágoas de mim por isso até hoje, mas a minha morte não tinha sido por vingança, creio, mas por dinheiro. Não posso compreender como uma pessoa como Regis tenha se prestado a tal coisa. Ele era um dos melhores alunos de direito, sempre dedicado e que se passava muitas vezes até por moralista.

   A vida nos mostra a cada dia o quanto a maldade está mais presente no coração do homem. Eu fiquei não só decepcionado com Regis, mas chocado por ele ter se rebaixado tanto. Eu não guardo magoas dele, por ele ter me matado e sim por o motivo pelo qual ele fez isto.

   A vida é cheia de surpresas: algumas boas, outras ruins; as boas servem para nos alegrar, as ruins, para nos ensinar. Nada na vida é sem sentido. E esta surpresa que tive com Regis me ensinou bastante. Ensinou-me que não devemos confiar nem no nosso melhor amigo, pois ele pode nos trair, ensinou-me que nós não podemos confiar nem na pessoa mais amável do mundo que ela pode nos matar por motivos fúteis.

   Claro que de certa forma também trai ele, talvez o tenha traído até de uma pior maneira, pois há quem diga que a morte da alma é pior que a morte do corpo e Regis teve sua alma morta, quando conquistei o coração da pessoa que ele mais amava no mundo, para em seguida abandoná-la a ponto de ela desesperada pelo meu amor tirar sua própria vida.

   Contando esses fatos acontecidos na minha vida eu concordo com o leitor que eu merecia morrer e ter ido para o inferno. Eu sabia que se morresse era para o inferno que iria, por isso que implorei tanto para ele me livrar da morte a qualquer custo.

 

 

Escrito por o Contador de historias às 10h39
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